O futuro político do Centrão

autor André Pereira Cesar

Postado em 25/10/2018 15:11:55 - 14:03:00


São muitas as lideranças que pertencem às fileiras do Centrão/Arquivo/Agência Câmara

A dimensão das bancadas que integram o grupo evidencia sua importância para o próximo presidente

Uma das marcas do processo eleitoral em curso foi o acirramento da polarização da sociedade, chegando em alguns casos, ao extremo. Se nas eleições de 2014 ocorreram diferenças, dessa vez, esquerda e direita claramente se dividiram e partiram para o confronto. As consequências disso ainda estão por vir.

Dada essa realidade, caberá ao próximo presidente, seja ele Jair Bolsonaro (PSL) ou Fernando Haddad (PT), caminhar para o centro do espectro político. Isso deverá ser feito já nos primeiros dias da transição.

No plano político-partidário, o futuro governo precisa contar não só com os partidos que o ajudaram a se eleger, mas também com as legendas do chamado Centrão. Elas serão fundamentais para a governabilidade e também terão papel importante na "reacomodação dos ânimos" na sociedade brasileira. Explicamos.

Bancadas: são integrantes do Centrão o DEM, o PP, o PTB, o Solidariedade, o PR, o PRB e o PSC. O PSD, partido de Gilberto Kassab, é próximo ao grupo mas mantém atuação independente.

Na Câmara dos Deputados, o Centrão elegeu 142 parlamentares, o que representa 28% da Casa. Em relação à legislatura anterior, esses partidos perderam 22 deputados, mas continuarão com peso político similar ao dos últimos anos.

No Senado Federal, por sua vez, serão 19 os representantes do Centrão com assentos na Casa a partir de fevereiro de 2019. Isso significa 23% do Senado.

A dimensão das bancadas do Centrão evidencia sua importância para o próximo presidente. Não se pode pensar numa agenda de reformas, que necessitam dos votos de ao menos 3/5 dos parlamentares, sem o apoio desses partidos.

Indo além, é possível afirmar que para a composição do novo governo, a distribuição de cargos, principalmente os de segundo e terceiro escalões, deverá passar pela bancada do Centrão. Os presidenciáveis, sabedores dessa realidade, já se articulam para a inevitável conversa.

Lideranças: são muitas as lideranças que pertencem às fileiras do Centrão. No DEM, por exemplo, o gaúcho Onyx Lorenzoni tem grandes chances de assumir a Casa Civil em um eventual governo Bolsonaro; Mendonça Filho (PE) é cotado para retornar ao ministério da Educação; Pauderney Avelino (AM) e Alberto Fraga (DF) também negociam com Bolsonaro; isso sem falar no presidente da Câmara, Rodrigo Maia, figura central na atual cena política.

O PP tem na figura de seu presidente, o senador Ciro Nogueira (PI), sua grande síntese. O senador é excelente negociador e circula bem em todos os meios políticos, tanto que chegou a declarar publicamente o voto em Lula.

O Solidariedade, por seu turno, é representado pelo deputado Paulinho da Força, que tem forte ascendência no meio sindical, é bom articulador e circula, dependendo da conveniência, por todos os setores.

O PRB tem como principais lideranças o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, e o deputado Celso Russomanno (SP), que comanda a bancada na Câmara. Crivella já foi, inclusive, ministro nos governos do PT.

No PR, o ex-deputado Valdemar Costa Neto (SP) continua com grande influência. O mesmo ocorre com o PTB, partido que segue comandado pelo ex-deputado Roberto Jefferson (RJ).

O PSC, por fim, tem uma liderança emergente, o candidato ao governo do Rio de Janeiro Wilson Witzel, que lidera as pesquisas. O partido, presidido por Pastor Everaldo, tem como referência na Câmara o deputado André Moura (SE), líder do governo Temer no Congresso Nacional.

Agenda: uma das características do Centrão é a habilidade para negociar com o Executivo as agendas de governo. Essa tem sido a prática desde o primeiro governo Lula e deverá ser mantida em 2019. Com exceção do DEM, todos os outros partidos sempre fizeram parte da base dos governos do PT e, agora, apoiam o governo Temer.

Uma agenda governista, seja de qualquer um dos dois candidatos, com foco principal nas questões previdenciárias e tributárias, certamente será apresentada aos comandantes do Centrão. Seus integrantes já votaram favoravelmente medidas impopulares e politicamente delicadas em outros governos. Um entendimento entre as partes deverá ser alcançado.

Governo Bolsonaro: um eventual governo Bolsonaro muito provavelmente contará com a participação do Centrão. Tanto que o presidenciável já negocia, de maneira ainda discreta, com o grupo. Exemplo disso é a posição de destaque do deputado Onyx Lorenzoni na campanha presidencial. Ele já pode ser considerado um dos "rostos" da possível gestão Bolsonaro.

O candidato do PSL tem uma vantagem adicional ao se aproximar do Centrão. Ele conta com poucos quadros, em sua equipe, para montar o primeiro e o segundo escalões de seu governo. Como já dito, o Centrão pode suprir com facilidade essa lacuna.

Considerações finais: como se vê, o Centrão terá papel estratégico no próximo governo, seja qual for. Na verdade, será apenas a repetição de uma prática que já ocorre desde o primeiro governo Lula, apenas com alguns atores novos.


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