Os evangélicos e o arrependimento

autor Misto Brasília

Postado em 07/11/2018 10:20:48 - 10:03:00


Sociólogo peruano José Luis Pérez Guadalupe que fez uma coletânea sobre os evangélicos/DaTuOpinion

Sociólogo peruano analisa o crescimento dos evangélicos na política da América Latina

Autor de vários livros sobre igrejas evangélicas, o cientista político e sociólogo peruano José Luis Pérez Guadalupe avalia que possíveis excessos do futuro governo brasileiro farão os evangélicos se arrependerem de seu apoio à campanha de Jair Bolsonaro. "Não há um pensamento homogêneo dos evangélicos, não há um pensamento político, mas um que vai seguindo conforme as circunstâncias", destaca.

Perez Guadalupe esteve nesta semana em Berlim para o lançamento de Evangélicos y poder en América Latina, coletânea que organizou para a Fundação Konrad Adenauer, ligada ao partido alemão União Democrata-Cristã (CDU). A obra reúne ensaios sobre a influência política crescente dos evangélicos nos países do continente.

Em entrevista à DW Brasil, o especialista afirma que a bancada evangélica no Brasil é formada, em grande parte, por políticos que não buscam o bem comum do país, mas favorecer seu próprio grupo e defender a chamada "agenda moral" – que inclui o combate ao aborto, à "ideologia de gênero" e ao casamento de pessoas do mesmo sexo.

“O Brasil foi o país onde houve o maior avanço dos evangélicos na política, mas que não chega a se desdobrar em sua plenitude em relação ao peso deles na sociedade. Porque temos cerca de 30% de evangélicos no Brasil e nas últimas eleições eles alcançaram cerca de 15% de representação na Câmara dos Deputados. Os evangélicos avançaram numericamente. Politicamente, eles conseguiram avançar mais do que na América Central, que tem quatro países com cerca de 40% de população evangélica”.

“A questão, porém, não é apenas quantos representantes evangélicos há na Câmara dos Deputados, mas as alianças que estão sendo feitas estrategicamente, a chamada bancada evangélica. Porque isso é interessante, e não somente a parcela que conseguiram – como já disse, entre 15% e 16%. Mas um ponto importante é a famosa bancada BBB (Bíblia, boi e bala), que agora passou a ser BBBB: Bíblia, boi, bala e Bolsonaro. Então, quando essas bancadas se juntam, aí sim, temos uma força importante. Ou seja, se todos os evangélicos se unissem, eles seriam o maior partido político do Brasil. Mas eles são muito atomizados”.

“Quando consideramos as bancadas, estamos falando, mais ou menos, de quase 30 denominações cristãs. Os que estão hoje no Congresso estão agrupados em cerca de 23 partidos e pertencem a 30 denominações cristãs diferentes. As denominações que têm mais deputados são as Assembleias de Deus, seguidas pelos batistas, juntos com os da Igreja Universal do Reino de Deus e, em terceiro lugar, está a Igreja do Evangelho Quadrangular. Mas eles vivem num sistema de fusão e fissão, se unem para algumas coisas e se dividem para outras”.

“O que os une é, basicamente, o tema da agenda moral: pela família, contra o aborto e contra o casamento homossexual. Aí eles se perfilam, inclusive, a muitos congressistas católicos. E se conseguem a união com as outras bancadas, então podem até mesmo paralisar políticas públicas no Brasil”.

“Um exemplo disso foi o que ocorreu no Peru, quando eles se opuseram a dois ministros da Educação, que tiveram que sair do governo justamente por causa de um projeto sobre "ideologia de gênero" no currículo escolar. O plano envolvia uma agenda de gênero, e os evangélicos não querem sequer que exista a palavra gênero. Ou seja, eles se opõem que exista a palavra "sexo", se houver uma agenda incluindo essa palavra, eles não a querem”.

“Boa parte da bancada evangélica, de fato, não tem uma visão cidadã da política, pensada como bem comum, mas como algo para o bem de um grupo. E me preocupa a entrada desse tipo de evangélicos na política. Mas eles não são os únicos. Também há os narcopartidos, ou partidos pela mineração. Tanto os narcotraficantes que apoiam um partido como os mineiros ilegais que apoiam outro e financiam os partidos para que os apoiem quando chegarem ao Congresso.

“Além disso, não há um pensamento homogêneo dos evangélicos, não há um pensamento político, mas um que vai seguindo conforme as circunstâncias. Quem sabe, daqui a quatro anos votem em outra pessoa que não seja Bolsonaro. Mas, no caso de Bolsonaro, me parece mais incrível que ele tenha atraído os evangélicos. Porque o discurso de Bolsonaro, por um lado, é machista, misógino, xenófobo e homofóbico mas, por outro lado, se diz a favor da vida. Então, os evangélicos esquecem deste outro Bolsonaro e somente veem o político que é a favor da vida, que é contra o aborto”.


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